UTILIZAÇÕES ARTÍSTICAS DE IMAGENS EM DIRETO NA WORLD WIDE WEB
Luisa Paraguai Donati
Gilbertto Prado

In: Anais do I Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, Universidade de Brasília, Instituto de Artes, Departamento de Artes Visuais, Brasil, pp.81-96, 1999.


O crescente acesso à Internet, a familiaridade e a facilidade de utilização do próprio meio vem transformando o comportamento do indivíduo que passa a gerir suas relações pessoais, sociais, de aprendizagem e de trabalho, neste novo espaço possibilitado pela tecnologia de rede. Dentre as interfaces, que disponibilizam as informações aos usuários na WWW, a utilização de câmeras de vídeo para captar e veicular imagens em direto se apresenta como objeto deste texto, na medida em que vem introduzir novas possibilidades de criação, aprendizagem e experimentação. A proposta deste texto é fazer um breve relato de espaços artísticos concebidos especificamente para este meio, apresentados a seguir em três situações distintas, que propõem transformações nas possibilidades de participação, interferência e expressão dos participantes.

A World Wide Web, com características próprias de inter-conexão e sincronicidade, vem gerando novas possibilidades de relação participante/informação/suporte tecnológico e proporcionando um espaço de comunicação interativo cujos infinitos percursos permite a participação de eventos, experiências de presença e ação à distância explorando a sensação de ubiqüidade e simultaneidade.

Nós já vivemos em uma sociedade que continuamente convive e incorporou a ubiqüidade da telecomunicação. O telefone está presente nos ambientes de trabalho, pessoais e de lazer, os telefones celulares e "pagers" possibilitam os contatos independente das pessoas estarem fixas em um lugar. Mais recentemente a Internet, vem incrementar esta teleconectividade ao permitir a troca de texto, imagens, som e vídeo com qualquer outra pessoa que interesse compartilhar profissionalmente ou socialmente, de uma maneira praticamente instantânea.

A recente utilização de câmeras de vídeo na Web para gerar imagens disponibilizadas simultaneamente ao acesso do usuário nos sites, vem habilitando uma interface que pretende propor um novo fenômeno de presença, virtual, diferida, remota, estendendo a percepção e ampliando as ações dos que participam. Estas câmeras são denominadas de "netcam" e "webcam", quando respectivamente colocam imagens em direto na Internet e na Web, podendo estar acopladas aos computadores, fixas em paredes e tripés, e até mesmo utilizadas por alguém como acessório ("wearable webcam").

Quando se fala sobre o contexto que envolve a captação e a transmissão de imagens em tempo real na Internet, não pode-se deixar de considerar algumas características inerentes da imagem eletrônica no vídeo e na televisão, que no ambiente das redes se mantêm e incorporam algumas especificidades próprias do meio. Segundo Julio Plaza, "Nenhuma tecnologia nasce impunemente, muito pelo contrário, cada invenção tecnológica aparece quase sempre como produto de novos fatores e das novas condições materiais de produção e, sobretudo, pela inter-relação e entrecruzamento dos diversos sistemas ou canais existentes"(1).

É importante considerar que a simultaneidade do tempo em que a imagem é veiculada na Web pode ser compartilhada por todos os participantes, com a possibilidade de ação nos ambientes. O uso de câmeras na Web vem assim introduzir uma especificidade própria e transformar o olhar do navegador sobre as imagens, quando incorpora à metáfora destas a telepresença, gerando uma situação onde o participante é capaz de propor uma modificação a um ambiente remoto e receber uma resposta deste. Desta maneira uma nova possibilidade de atuação dos usuários é desencadeada por uma estética resultante da sinergia de elementos não formais, tais como a coexistência em espaços virtuais e reais, sincronicidade de ações, controle remoto em tempo real, operação de telerobôs e observação remota, de forma colaborativa através da rede.

Nestes links de telepresença, imagens e sons são transmitidos mas não há emissores intermediando significados particulares ao receptores; é uma experiência bidirecional individualizada que difere da experiência do telefone e da recepção unidirecional das mensagens da televisão. A telepresença parece criar este espaço de reciprocidade ausente dos meios de comunicação de massas, quando as opções/ações realizadas pelos usuários (movimento, observação, operação, etc) afetam o ambiente remoto e podem receber uma retroação deste.

Para Eduardo Kac, "a Arte da Telepresença cria um contexto único como forma de produzir experiências engajadas e abertas, que tratem questões de transformações culturais pelas possibilidades de controle remoto, observação remota, "telekinesis" e trocas de informação audiovisual em tempo real" (2). Segundo Ken Goldberg, "... enquanto a realidade virtual converge para a sua natureza ilusória, a telepresença pode ser definida como a apresentação de uma informação perceptiva que reivindica corresponder a uma realidade física distante" (3). O que está sendo experimentado, mais do que o simulacro, são as transformações de percepção de ficção e realidade, tornando os limites entre o que é construído e observado extremamente imprecisos, incertos, ambíguos.

Vários artistas vem desenvolvendo projetos na Web a partir de imagens em direto, que projetam a ação humana em espaços físicos distantes, transpondo barreiras de espaço-tempo. Alguns desses ambientes construídos pela intermediação destas imagens serão apresentados a seguir, valendo-se ressaltar a sua existência e significação dependentes da intervenção do participante, com a possibilidade de ser compartilhada com outros usuários da Web, através do site. Sem esta intervenção do usuário a obra permanece uma potencialidade, não perceptível. A obra se divide incessantemente entre estados virtuais/potenciais e estados atuais que fazem de cada leitura um acontecimento singular e único. Como diz Edmond Couchot, "... A obra não é mais fruto somente da autoridade do artista, mas se produz no decorrer de um diálogo, quase instantâneo - "em tempo real" - com o espectador..." (4), uma vez que o participante não está apenas reduzido a olhar, mas tem a possibilidade de agir, propor e modificar a obra. Este passa a interagir ativamente na construção da realidade, muitas realidades com muitos significados e várias trajetórias de experiência.

Em todas estas situações, o artista se apropria da tecnologia para propor "novas" estéticas utilizando materiais não mais de ordem física ou energética, mas de ordem simbólica, constituídos por programas informáticos. Na sua constante ação de reverter os processos formais, o artista transforma as condições de produção e circulação de sentido e potencializa as possíveis formas de atuação e ação por parte dos usuários. A produção artística de ambientes agenciados pelas novas tecnologias disponíveis pode ser considerada como diz Marshall McLuhan "antiambientes" ou "contra-ambientes", uma vez que nos fornecem os meios de perceber o próprio ambiente, como uma forma de treinar a percepção e o julgamento (5).

Diante dessa específica forma de expressão pode-se em um primeiro momento, a partir das diversas possibilidades de atuação e intervenção dos usuários diante das imagens, propor uma categorização dessa relação em três grandes situações distintas: a observação direta à espaços físicos remotos, o intercâmbio sincrônico de informação e a ação remota em distintos espaços físicos.


1. A OBSERVAÇÃO DIRETA À ESPAÇOS FÍSICOS REMOTOS

A maioria dos sites que se utilizam de webcam estão monitorando o mundo com diferentes objetivos, circulando por exemplo imagens de tráfego, do tempo meteorológico ou de vistas panorâmicas para turismo e propaganda. Nestas situações os usuários podem simplesmente observar e verificar as condições dos espaços remotos no tempo, através das imagens que se sucedem diante deles sem qualquer outra possibilidade de intervenção, com o recurso de atualização automática das páginas codificadas em HTML.

Em outras situações esta postura de observador pode estar acompanhando outras cenas, "espiando" momentos cotidianos de outras pessoas "comuns", que desejem mostrar como são e o que fazem. Nesta atitude de voyeurismo explícito temos do outro lado da câmera o exibicionismo, uma reversibilidade de olhares, um jogo de expressão que trabalha com o imaginário pessoal sendo reforçado pela possibilidade do anonimato, característica específica da comunicação na Web.

Muitas vezes esta observação pode transformar-se em vigilância da presença e das situações nas quais as pessoas se envolvem. Em uma sociedade tecnológica permeada de sistemas eletrônicos de vigilância, freqüentemente nos deparamos com câmeras de controle em aeroportos, estações de metrô, supermercados, shoppings, bancos, entre outros, e somos submetidos aos olhares técnicos e impessoais destes monitores. Com a miniaturização da tecnologia a vigilância tornou-se imperceptível de um lado e de outro extremamente abusiva na relação limítrofe entre "ver" e "ser visto".

Sites

"Depois do Turismo vem o Colunismo"

Recentemente, entre 3 de setembro e 31 de outubro de 1998, a Web-instalação de Gilbertto Prado, "Depois do Turismo vem o Colunismo" fez parte da exposição "City Canibal" no Paço das Artes em São Paulo e da seleção de sites de Web Arte da XXIV Bienal de São Paulo de 1998. Atualmente encontra-se no endereço eletrônico como registro do evento (http://wawrwt.iar.unicamp.br/colunismo/colunismo.html).

A instalação consistia em um "portal" com duas WebCams conectadas à rede Internet que eram disparadas por sensores dispostos no espaço físico da instalação pela passagem dos visitantes. Essa imagem local capturada em tempo real era mesclada com as de um banco de imagens e disponibilizada via rede pelo planeta. Outros participantes, localmente distantes da parte física da instalação, via WebCam, podiam espiar o espaço com a câmera e a fusão com as imagens geradas. O trabalho se pautava com humor sobre a presença, o olhar estrangeiro e o canibalismo cultural.


"The GhostWatcher"

A autora desta instalação é a artista June Houston, e está sendo veiculado na Web desde 1995 (http://www.flyvision.org/sitelite/Houston/GhostWatcher/index.html). A proposta deste trabalho parte de um convite formal aos usuários, que navegam pelo site, na tentativa de descobrir a causa de estranhos sons que habitam os recantos, mais escondidos e "esquisitos", debaixo da "cama" da artista.

A instalação física consiste de várias estruturas de madeira que suportam a cama de June e criam em um espaço fechado cantos e recantos, dobras e texturas plásticas, numa atmosfera de reclusão com muito por se desvendar. Em alguns pontos deste espaço foram colocadas cinco câmeras de vídeo e acopladas a estas um spot de luz, sem qualquer preocupação de negar a existência desta constante observação. Este foco de luz possui um movimento giratório em torno da câmera (entre 1 e 3 minutos), que possibilita um jogo de sombras, insinuando formas e contornos, aos quais os usuários são levados a configurar de forma lúdica, como corpos e presenças etéreas. Em cada canto deste espaço existe um convite ao imaginário pessoal, para que navegue pelo lado obscuro, escondido e encontre assim seus próprios medos e "fantasmas". A artista expõe, compartilha com os usuários da Web, de forma extremamente poética o seu mundo e as suas estórias.

Em muitas das imagens é possível visualizar as outras câmeras, o que deixa a sensação de podermos estar também sendo observados. A relação observado/observador na Web pode facilmente ser revertida, quando da utilização de webcam em sistemas de vídeo conferência. Em outras imagens, como "vãos/aberturas", detalhes de composição de elementos, são trabalhadas de forma extremamente plástica. Não importa a informação semântica desses "objetos/espaços" mas a informação estética, capaz de produzir sentido e construir seus próprios significados em cada um dos participantes.

O interessante é o espaço dos usuários para se manifestarem a respeito do site, de sua proposta e de como experimentaram as imagens colocadas por June. Em cada página Web existe uma área disponível ao participante para que possa se expressar enviando comentários, enquanto texto e/ou imagem. Uma vez enviada a mensagem, o usuário poderá ter as suas observações incorporadas a um arquivo permanente "online" e disponível para leitura. A triagem destas mensagens tenta evitar a redundância e garantir o trabalho da artista. Existe também um espaço para que a autora possa fazer os seus próprios comentários, ao responder perguntas, concordar, discordar, estabelecendo portanto uma comunicação de forma assincrônica com os que participam do seu espaço. Segundo June Houston "... o trabalho está nas imagens e nas respostas dos observadores, participantes desta estória".


2. O INTERCÂMBIO SINCRÔNICO DE INFORMAÇÃO

Os sistemas de vídeo conferência na Web viabilizam uma das formas de comunicação sincrônica entre usuários, podendo ser visualmente estabelecida com troca de imagens via câmera, texto via "chat", áudio e/ou simples transferências de arquivos. É possível conectar-se com outras pessoas e fazer novos amigos, expandir as suas relações profissionais e cadeias sociais, encontrar interesses comuns, assistir eventos de entretenimento, esporte, educação e muito mais. Pode-se dizer então que este sistema vem tornando possível várias formas de relacionamento no ciberespaço, quando as pessoas por toda parte do mundo estão reunindo-se, por exemplo em torno dos refletores CU-SeeMe ou das salas de chat no Netmeeting, com as mais diversas intenções.

A comunicação pessoal na Web caracteriza-se pela possibilidade de anonimato nas relações, tornando-se um jogo especial onde as pessoas se apresentam como desejam ser e estar. Nestes sistemas de vídeo conferência a construção da "imagem" do outro torna-se mais vulnerável ainda que mais expressiva, na medida em que acontece baseado em informações limitadas, mediadas pelo compartilhamento de texto, imagem e som. Mas mesmo diante dessa situação, o anonimato propicia às pessoas a chance de expressar múltiplos e freqüentemente não explorados aspectos do "eu", jogar com suas identidades e tentar outras novas.

Considerando algumas diferenças técnicas entre cada sistema disponível hoje no mercado, a vídeo conferência com o seu caráter de entretenimento, de provedor de conteúdo e de informação vem gerando transformações dos hábitos pessoais dos indivíduos e suas possibilidades de concepção e de criação. Vem também ampliando as formas de aprendizagem e de ação ao gerenciar educação à distância nas chamadas "universidades virtuais" ou equipes de trabalho e projetos em sistemas corporativos empresariais, sem a imposição de limites geográficos ou a necessidade de deslocamentos físicos das pessoas envolvidas, com a possibilidade de compartilhamento e transformações dos dados/informações em tempo real.

Sites

"Rara Avis"

Esta instalação de telepresença interativa na rede foi elaborada pelo artista brasileiro Eduardo Kac (http://www.ekac.org/raraavis.html), em Agosto de 1996 e apresentada no Nexus Contemporary Art Center, em Atlanta, como parte da exibição denominada "Out of the Bounds: New Work by Eight Southeast Artists". Também pôde ser vista na Casa de Cultura Mário Quintana durante a I Bienal de Artes Visuais do Mercosul, em Porto Alegre, de Outubro à Novembro de 1997.

Esta instalação consiste de um espaço físico na galeria, com um grande aviário ocupando parte da sala, e o ciberespaço da rede de ações e intervenções dos usuários da Web, via teleconferência. Dentro deste aviário além de pássaros cinzas reais, havia um grande pássaro colorido e imóvel que apenas "olhava" em torno e ocasionalmente "falava". Este é rara avis, o elemento central da instalação, um robô com câmeras de vídeo miniaturas colocadas no lugar dos olhos.

O visitante da galeria podia colocar um capacete que o transportava para o interior do aviário, passando a ver através dos olhos do rara avis. O participante experimentava então diferentes sensações, outros ângulos de visão uma vez que havia um limite físico no movimento do seu olhar, comandado pela localização dos olhos no corpo do pássaro.

Os usuários da Web podiam compartilhar do corpo do rara avis, não apenas como observadores mas enviando suas vozes via rede. Pessoas de diferentes lugares passavam a coabitar o mesmo corpo físico e a atuar remotamente em um espaço físico, interferindo no comportamento das aves que habitavam o espaço e das pessoas que circulavam pela galeria. Esta intervenção dos usuários foi realizada pelo sistema de vídeo conferência CU-SeeMe, com diferentes formas de acesso e velocidade. Aquelas pessoas com acesso ao MBone (Multicast Backbone), uma rede de estações de trabalho com grande largura de banda de transmissão, podiam receber em tempo real imagens coloridas, com alta resolução e alta taxa de atualização dos frames. Para o usuário padrão, estas imagens eram em branco/preto e atualizadas a cada dez segundos. O artista quis evidenciar nesta diferença de acesso ao site a natureza não igualitária do desenvolvimento tecnológico. Apesar das previsões otimistas de expansão da Internet com oportunidades de novas associações sem controle, o fato permanece: o acesso à rede é ainda disponível para uma minoria, preservando e gerando novas discrepâncias sociais, em um meio que aparenta ser uma oportunidade sem precedente para a construção de novas formas de comunidade. Para Phillipe Quéau "...novas desigualdades culturais aparecem em conseqüência do desenvolvimento de novas tecnologias. O mundo pode ficar dividido entre os "info-ricos", aqueles que têm acesso à informação e os "info-pobres", afastados das novas tecnologias que, como a Internet, estão dominando o mercado. O desconhecimento destas redes virtuais dará lugar a um novo modo de analfabetismo" (6).

O artista cria um novo ambiente onipresente, com "telerobôs", animais, ações humanas físicas remotas e locais, na tentativa de criar diferentes alternativas de percepções de lugares comuns do mundo. Ele "merge" nossa percepção imediata do que é presente com a consciência do que está nos afetando remotamente; estende/expande tecnicamente e esteticamente a forma de utilização dos sistemas de vídeo conferência.


"Teleporting an Unknown State"

Esta instalação interativa telemática do artista brasileiro Eduardo Kac (http://www.ekac.org/teleporting.html) foi apresentada no Siggraph '96 Art Show em Julho de 1996, no Contemporary Art Center, New Orleans, EUA.

Este trabalho apresenta a idéia de "teletransporte" de partículas, e não de matéria, fora do seu contexto científico e no domínio da interação social possibilitada pela Internet. Este dispositivo conectou uma galeria física ao ciberespaço da Internet; uma semente foi plantada em um espaço físico escuro desta galeria, onde havia apenas um projetor de vídeo apontado para ela; enquanto na rede Internet, de espaços remotos em torno do mundo, indivíduos anônimos apontavam suas câmeras digitais para o céu e transmitiam, através de imagens, a luz do sol para a galeria. Os fótons capturados pelas câmeras eram re-emitidos pelo projetor para a semente na galeria; assim as imagens de vídeo captadas em tempo real de lugares remotos eram despojadas de qualquer valor de representação pictórica, formal, plástica e usadas como transportadores de ondas de luz.

O autor neste trabalho realiza uma intervenção estética renovadora, quando subverte a utilização usual dos sistemas de vídeo conferência para formalizar a existência do próprio meio, como uma rede de relações dos que circulam na Web. Nesta instalação não ocorre nenhuma troca verbal entre os participantes/emissores destas imagens como é usual nos sistemas de teleconferência, mas o teletransporte de fótons. Como diz Arlindo Machado, "... esta subversão continua da função da máquina de que o autor se utiliza, manejando-a no sentido contrário de sua produtividade programada, talvez possa ser dita como um dos papéis mais importantes da arte numa sociedade tecnocrática. Nesta recusa sistemática de submeter-se à lógica dos instrumentos de trabalho, ou de cumprir o projeto industrial das máquinas semióticas, o artista termina por reinventar as funções e finalidades para as quais foram construídas. Os resultados obtidos nem sempre podem ser premeditados ou planejados pelo artista ou por sua equipe, mas também não poderiam emergir se a utilização da "máquina" ocorresse dentro dos seus padrões usuais de funcionamento" (7).

Neste espaço físico-telemático, que interconecta um ambiente físico e o ciberespaço da Web, o crescimento da planta "corporifica" este contexto tecnológico e reflete a ação colaborativa dos anônimos que circulam nas redes; emergindo desta participação uma responsabilidade coletiva na sobrevivência de um organismo. A atuação dos participantes no envio das imagens, viabiliza um processo que reverte o sistema de transmissão broadcasting (um emissor para milhares de receptores passivos). Nesta nova situação, milhares de indivíduos em diferentes lugares geograficamente remotos, tornam-se "emissores de luz" para um único ponto na galeria do Contemporary Arte Center.


3. A AÇÃO REMOTA EM DISTINTOS ESPAÇOS FÍSICOS

Com o desenvolvimento da tecnologia robótica, imersa no ambiente das telecomunicações, tornou-se possível a transmissão e a recepção de sinais de controle de movimentos enquanto uma informação audiovisual. Assim a telepresença pode transportar um indivíduo de um espaço físico para outro, tornando factível a experimentação de ambientes remotos a partir de perspectivas de imersão (realidade virtual) ou de segunda pessoa (telerobótica, teleoperação). Em princípio, telepresença e realidade virtual (8) coincidem apenas quando uma pessoa imersa em um ambiente sintético do ciberespaço pode remotamente controlar um "telerobô" no espaço físico e receber respostas de suas interferências.

Em alguns espaços na Web existe a possibilidade de manipulação do ambiente remoto pelo usuário a partir de imagens em direto. Esta ação acontece pela existência de algum dispositivo físico no final da conexão, o robô, que passa a atuar pelo usuário no espaço físico distante. Em cada proposta de trabalho a figura do robô é explorada de forma particular, como objetos eletromecânicos controlados por computadores avançados e freqüentemente hibridizados com outras mídias, sistemas, contextos e/ou formas de vida.

Segundo Eduardo Kac, "a arte robótica introduz o problema da modelagem de comportamento, pois o artista cria não apenas a forma mas elabora ações, reações e torna possível situações interativas sem precedentes em espaços físicos ou telemáticos, no ambiente das redes. ... o "objeto" percebe o observador e o ambiente, desafiando a nossa compreensão do que é um robô, questionando nossas premissas na concepção, construção e utilização destas criaturas eletrônicas. A relação do público com robôs de diferentes tipos, mescla de fascinação e temor, implica em questões emocionais, políticas, e sociais inexploradas, particularmente quando compreendidas no contexto da arte contemporânea" (9).

Sites

"Ornitorrinco in Eden"

Um trabalho precursor da arte de telepresença na Internet foi Ornitorrinco in Eden, como parte do Festival de Arte Interativa: "Beyond Fast Forward" organizado por Northwest CyberArtists and 911 Media Arts, em Outubro de 1994, em Seattle, WA. Este trabalho fazia a ponte entre o ciberespaço da Internet com outros espaços físicos localizados em Seatlle (controle), Chicago (robô) e Lexington (controle). Para controle dos movimentos do ornitorrinco havia uma colaboração não-hierárquica e compartilhada pelos participantes anônimos em Seatlle e Lexington; estes participantes remotos dividiam o mesmo corpo do robô e "frame a frame" construíam uma nova realidade. Este novo contexto criado por estas pessoas era compartilhado por observadores na Web, que experimentavam um espaço distante lúdico de uma perspectiva outra que não a própria, pois a eles era possível acompanhar os movimentos do ornitorrinco sob o ponto de vista dele em um espaço construído com elementos obsoletos da própria mídia, como discos LP, fitas magnéticas, placas de circuitos, entre outros.

Esta experiência remota e compartilhada, entre participantes em Seatlle e Lexington e usuários da Web, minimizava barreiras lingüísticas, distâncias espaciais e temporais em favor de uma experiência comum, onde espaços reais e virtuais tornavam-se equivalentes temporariamente. A proposta não era recriar espaços de ambientes existentes mas que a imagem disponibilizada viesse se tornar o lugar; o participante "vivenciava" a imagem que via não como um signo, no sentido semiótico da palavra, mas como o "locus", tornando este trabalho uma ponte efêmera entre espaços reais e uma arquitetura mental instantânea enquanto a navegação se fazia (10).


"PRoPs - Personal Roving Presence"

Este sistema mecânico tele-operado de forma remota pelos usuários da Web foi desenvolvido por Eric Paulos (Department of Electrical Engineering) e John Canny (Computer Sciences) na University of California, Berkeley, California em Outubro de 1996 (http://www.prop.org). Este "telerobô" produz a sensação de "tele-incorporar" em um espaço real remoto, potencializando a performance humana em uma série de tele-atividades ao capacitar os usuários da Web de movimento e expressão: passear, ler, escutar, conversar. Este sistema possui duas formas de apresentação, um "dirigível" ("space browser") e um "carro cruzador" ("surface cruiser"), ambos tele-operados.

O objetivo deste projeto não é retratar interações humanas de forma realística, mas identificar e refinar traços e habilidades do comportamento humano, que são inerentes na sua comunicação, no seu entendimento, compreensão e interação com o espaço e com as pessoas que estão em torno. Na vídeo conferência usual, pode-se ver e ouvir aquilo que o parceiro remoto coloque dentro do campo de atuação da câmera, enquanto que com os PRoPs o usuário possui uma maior flexibilidade de movimentos e autonomia do que ver e ouvir.

Esta "corporificação" em um espaço remoto ganhou maior consistência com o elemento mais aparente da comunicação que é o som: o "barulho" no background da transmissão, tornando o ambiente menos asséptico/elaborado e mais "real". Os usuários puderam perceber/experimentar/sentir com maior exatidão o ambiente ao receberem uma variedade de sons que insinuavam os movimentos, as pessoas, os objetos, como sons de portas se abrindo, elevadores chegando, passos, conversas, música, tráfico de automóveis, vento, chuva, arquivados como "dados" segundo as várias formas de percepções do corpo.

A imagem do vídeo disponibilizada nestas experiências imersivas é sem dúvida um dos elementos mais importantes, devendo-se considerar a dificuldade de demanda de vídeo na rede Internet. A resolução da imagem torna-se significativa entretanto, quando passa a interferir na leitura e comportamento do usuário no espaço remoto, quando está conversando com outra pessoa, examinando um objeto, lendo uma placa. Quando ele está "navegando" ou quando várias atividades significativas estão ocorrendo dentro do campo de visão da câmera, a importância de uma alta taxa de frames do vídeo domina em relação à resolução da imagem. A imagem do participante também é transmitida via tela CCD ao espaço remoto e disponibilizada através de vídeo ou frame fixo, construindo assim a identidade e a existência do usuário remoto através de seus gestos e expressões faciais.

A reflexibilidade é esta capacidade do usuário de experimentar a própria existência e ações através do PRoP, quando escuta a sua voz enquanto conversa ou assiste visualmente as ações que resultam de seus comandos, tornando-se um elemento muito importante para tornar ainda mais expressiva a "tele-incorporação" e que pode ser inibida pela dificuldade de transmissão das informações durante a conexão, em função da largura de banda.


"The Tele-garden"

É uma instalação artística telerobótica onde um jardim natural sobrevive pela manipulação de um robô operado remotamente por usuários da Web, via uma câmera CCD colorida. O projeto foi criado para possibilitar a interação do participante na Web ao criar um sentido de telepresença, estendendo a atuação deste através do espaço com experiências de comunidades "online" eletrônicas. A equipe deste projeto é composta por: Ken Goldberg, Joseph Santorramana, George Bekey, Steve Gentner, Rosemary Morris, Carl Sutter, Jeff Wiegley (11).

Esta instalação foi apresentada em Agosto de 1995, no Interactive Media Festival, Siggraph, Festival for Interactive Arts, and the New Voices - New Visions (NVNV) New Media Competition, University of Southernn California. Em 1996 foi removido para Linz, Áustria no Ars Electronica Center, aonde se encontra até hoje. O endereço eletrônico atual é http://telegarden.aec.at/.

Este espaço explora a questão do Pós-Nomadismo, quando só após o domínio da tecnologia da agricultura os homens passaram a se estabelecer numa região, a cultivar a terra e a constituir posteriormente comunidades. Em sites Web, os links oferecem inúmeros caminhos determinados, sem incentivar uma comunicação recíproca entre os usuários e levando a uma atitude caótica de movimentação no ciberespaço. Neste espaço a intenção é gerar ao participante experiências de sentido da presença de outros usuários através da troca mensagens, concomitante à própria atuação de olhar o jardim de múltiplas perspectivas, plantar flores e regá-las. O "Telegarden" desencoraja o anonimato, tão característico da Internet, na medida em que os membros possuem e-mail válido e/ou URL da "home-page" e podem assim reconstruir a identidade dos participantes, reconfigurando o processo de conhecimento "face-a-face". O usuário pode escolher para visitar o espaço um comportamento de convidado ou como membro do "tele-garden", onde o plantar torna-se uma atitude habilitada a partir de 100 hits.

Enquanto na maioria das vezes, a navegação pelos sites da Web acontece como um ato pessoal e solitário, este espaço vem tentar reduzir este sentimento de solidão quando possibilita os encontros virtuais simultaneamente à sua navegação. Os encontros em comunidades físicas são regidos pelo fato de existir e ser compartilhado o mesmo ambiente físico. Enquanto na Internet, estes encontros revelam a tentativa de transcender as barreiras espaço-temporais na comunicação estabelecida entre os participantes.

O Tele-Garden coloca-se portanto, como uma experiência em comunidade eletrônica, onde os usuários da Web podem reunir-se, relacionar-se entre eles a partir de um ambiente real físico. Os visitantes passam a estabelecer relações pessoais, íntimas, sociais durante as visitas pelo site, compartilhando fatos, acontecimentos e a reproduzir comportamentos, rituais, hierarquias e camadas sociais.


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(1) PLAZA, Julio, "Videografia em Videotexto", São Paulo, Editora Hucitec, 1986.

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(2) KAC, Eduardo, "Telepresence Art" in Teleskulptur 3 (book), R. Kriesche and P. Hoffman, Kulturdata and Division of Cultural Affairs of the City of Graz, Graz, Austria, pp.48-72, 1993.

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(3) GOLDBERG, Ken, "Virtual Reality in the Age of Telepresence" in Convergence: The Journal of Research into New Media Technologies, vol.4, n.1, University of Luton Press, 1998.

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(4) COUCHOT, Edmond, "A Arte pode ainda ser um relógio que adianta? O autor, a obra e o espectador na hora do tempo real" in A Arte no Século XXI: A Humanização das Tecnologias, Fundação Editora da UNESP, São Paulo, pp.135-143, 1997.

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(5) McLUHAN, Marshall, "Os meios de comunicação, como extensões do homem", Editora Cultrix, São Paulo, 1995.

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(6) QUÉAU, Phillipe, "La realidad de los virtual, la virtualidad de lo real" in Conferences: Mundialización, Ciencia Y Tecnología Como Asuntos Públicos, 1997.

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(7) MACHADO, Arlindo, "Repensando Flusser e as Imagens Técnicas" in Comunicação apresentada no GT Imagem e Som - 7ª Compós, São Paulo, 1998.

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(8) Segundo Ken Goldberg, a realidade virtual pode ser definida como a apresentação de uma informação perceptiva que realísticamente simula um ambiente fictício 3D e permite ao usuário escolher um ponto de vista do espaço, isto é, mover-se através deste ambiente. (GOLDBERG, Ken, "Virtual Reality in the Age of Telepresence" in Convergence: The Journal of Research into New Media Technologies, vol.4, n.1, University of Luton Press, 1998.)

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(9) KAC, Eduardo, "Foundation And Development of Robotic Art" in Art Journal, vol.56, n.3, pp. 60-67, College Art Association, New York, 1997.

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(10) KAC, Eduardo, "Towards Telepresence Art" in Interface, vol.4, n.2, p.2-4, Advanced Computing Center for the Arts and Design, The Ohio State University, 1992.

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(11) Ken Goldberg - Department of Industrial Engineering and Operations Research at UC Berkeley; Joseph Santorramana - UC Irvine Art Department; George Bekey, Steve Gentner, and Jeff Wiegley - Computer Science Department, Carl Sutter - Center for Scholarly Technology.

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