AS REDES TELEMÁTICAS: UTILIZAÇÕES ARTÍSTICAS
Gilbertto Prado
| In: Imagens, nº 3, pp. 41-44, Editora da Unicamp, Campinas, dezembro de 1994. |
RESUMO
Com os "pequenos dispositivos" telemáticos destinados ao grande público, que já permitem uma performance razoável, nós temos uma descentralização dos "nodos" e um acesso simplificado às redes. A utilização desses sistemas vêm penetrando todas as camadas sociais e se integrando nas atitudes mais banais do nosso cotidiano. Pretendemos discutir as transformações propiciadas pelas conexões em redes telemáticas como possibilidade de composição, partilha e veiculação.
INTRODUÇÃO
Os computadores e as redes de telecomunicações são indissociáveis da infra-estrutura econômica e de informação deste fim de século. Não nos surpreende que alguns artistas tenham escolhido trabalhar com essas tecnologias de comunicação predominantes. O acesso à complexidade do mundo se faz de mais em mais por essa intermediação tecnológica: formas de procedimento e de esquematização que para alguns vai desencadear uma uniformização do mundo, dar lugar a uma perda do sensível, e para outros, ao contrário, são as ferramentas e os instrumentos necessários para se aproximar e despertar o seu "próximo", por mais longe que ele esteja. Os criadores que trabalham hoje com esses meios possantes crêem estar diante de novas possibilidades e de transformações consideráveis, ou seja, diante de novos desafios. Entretanto, o interesse principal é de trazer uma visão sensível e critica, com a ajuda dessas novas possibilidades, ao mesmo tempo que se favorece e se estimula a circulação do imaginário social e coletivo. Os artistas podem ajudar à explorar o espaço tecnológico e suas contradições.
Com os "pequenos dispositivos" telemáticos destinados ao grande público, que já apresentam uma performance razoável, nós temos um acesso simplificado e uma descentralização dos "nós" (nodos) das redes. Podemos utilizar esses sistemas como um nó em si-mesmo, não importa aonde e de maneira autônoma. A utilização desses dispositivos vêm penetrando todas as camadas sociais e se integrando nas atitudes mais banais do nosso cotidiano.
A problemática da criação, geralmente colocada em termos de novas potencialidades técnicas, reside nas transformações radicais que elas aparentam algumas vezes engajar, tanto ao nível das obras individuais, quanto aos modos de difusão. Desta maneira, podemos considerar as novas funcionalidades como uma possibilidade de releitura dos objetos e dos processos de criação. Entretanto, para que abordemos corretamente esta questão, devemos distinguir entre possibilidade técnica e realização artística. Enfim, é somente à partir dessa última década que os artistas começam a explorar sistematicamente as recentes possibilidades advindas com a imagem numérica interativa, a informática e as telecomunicações.
A idéia que se defende é que nessas trocas, nesses intercâmbios, se enraíza aquilo que especifica uma maneira de estar no mundo e de (se) tornar o mundo inteligível. Isso diz respeito a organização e a reunião de forças que determinam as preferências e as desconfianças. Queremos também assinalar que a arte em rede é uma das possibilidades que se reforça com a instalação e a banalização dessas "máquinas de comunicação" no nosso cotidiano. Ao mesmo tempo em que o artista utiliza essas maquinas que vêm se tornando a cada dia mais acessíveis, seu "poder de ação" é renovado por essas mesmas máquinas.
AS REDES ARTÍSTICAS
Os intercâmbios artísticos em rede abrem uma área de "jogo" e um espaço social lúdico que acentua o sensível e as estratégias de partilha, mas que procuram articular no trabalho artístico as experiências do indivíduo confrontado a uma realidade complexa e em movimento, a desordem do mundo e a de cada um em particular. Cada artista, em cada participação, contempla, da sua maneira, uma certa possibilidade do mesmo mundo. Trata-se, em efeito, de uma mise en scène de diferentes imaginários, que não precisam se sujeitar às exigências de uma formalização estrita e anterior, de um sistema fechado de arrazoamentos e de práticas. As lógicas das redes, quer dizer, as maneiras como esses intercâmbios acontecem, celebram assim, sem interrupção, essa liberdade de dispor sempre diferentemente os sentidos do mundo, de poder colocar de outra maneira as coisas e as suas significações. A criação em rede é um lugar de experimentação, um espaço de intenções, parte sensível de um novo dispositivo, tanto na sua elaboração e sua realização como na sua percepção pelo outro. O que o artista de redes visa a exprimir em suas ações é essa outra relação ao mundo: tornar visível o invisível, através e com um "outro"; para descobrir e inventar novas formas de regulação com o seu meio, onde o funcionamento complexo coloca o indivíduo contemporâneo numa posição inédita.
COLABORAÇÃO E COMPLEMENTARIDADE
Nós podemos distinguir na noção de "rede", de uma parte, um conceito, ou seja uma forma de trabalho, de ação/pensamento, de interação em um contexto partilhado; de outra parte, uma matriz técnica de transporte e de organização da informação e do simbolismo que ela veicula. Do ponto de vista artístico, as redes contém duplamente as pessoas como um de seus elementos ativos: enquanto indivíduo, "mestre temporário" da situação e enquanto co-ator numa sistema participativo com certos graus de liberdade e de possibilidades. Uma vez que o interventor se desloca a cada ponto na rede, ele carrega consigo todos os outros. Ele faz valer suas intervenções até o próximo contato a partir do qual ele se torna espectador sem poder de ação, mais como um propulsor da situação que ele mesmo iniciou. Este encadeamento de transformações está relacionado tanto ao processo quanto ao produto visual e/ou sonoro. É todo um imaginário social e artístico que está em jogo e em expansão e de onde dificilmente nós podemos separar as participações individuais. A "rede" implica as ferramentas, os objetos, as proposições, e o contexto circundante, com o indivíduo incluso nesse espaço virtual.
O trabalho em rede necessita de uma complementaridade entre as pessoas implicadas, e uma experiência de colaboração mútua é necessária para que os parceiros possam intervir de forma coletiva. A decisão de desenvolver um trabalho coletivo, conduz à questões de estratégia de processo e de convites, para colocar em conexão os participantes em condições propicias a uma possível criação. Trata-se de um work in progress, um processo "evolutivo" que acompanha os participantes e sua indispensável propagação se efetua em função dos interesses suscitados pela particularidade de cada projeto, assim como pelo empenho dos parceiros a esse espírito de exploração em grupo. É uma rica combinatória de vontades e de intervenções que requer nada menos que um conjunto de importantes qualidades artísticas individuais para se chegar a uma experiência comum. Mas a fronteira permanece fluida entre o que diz respeito à ação de um indivíduo e a proporcionada por seus vizinhos - espaços de transição sobretudo nebulosos, eles funcionam mais como ativadores ou catalisadores de ações que se seguem e se encadeiam.
Por outro lado, essa dupla aspiração de individualidade e de universalidade constitui o fundo comum dos participantes. Vizinho ao desejo de participar, existe a união ciberpoética com os outros onde nos consumimos, nos transformamos, nos apresentamos e onde regeneramos a consciência.
A PRODUÇÃO INTERATIVA
Com a transformação das tecnologias e a interatividade, as divisões entre aquele que faz e aquele que consome arte, entre autor e leitor, artista e observador, são transformadas. Essas mesmas técnicas autorizam assim uma ação direta sobre o próprio dispositivo. É todo um ambiente que tende a levar em conta a ação dos participantes. O trabalho artístico resulta da convergência de uma estrutura dinâmica que só pode ser captada nas suas interações sucessivas. O sentido se constitui pelo "jogo" de um diálogo estabelecido entre os participantes. Vemos também que não se trata mais de separar o objeto artístico de seu consumidor ou produtor virtual, o artista de seu interlocutor, mas de ligá-los numa mesma produção, num mesmo lugar. A posição do artista se encontra então de uma parte identificada a do fabricante e de outra parte a do observador. Estamos na concepção de um "mundo de arte", composto de redes que religam todas as pessoas cujas atividades são necessárias à realização de um trabalho artístico. A esfera da arte é então estendida, notadamente a certas práticas estabelecidas na vida cotidiana e habitualmente afastadas do campo artístico convencional.
Um outro eixo de discussão se articula sobre as tensões e as relações existentes nas redes artísticas em função de suas constituições, procedimentos e possibilidades de contato "simultâneo", fruto dessa nova sinergia entre os homens, as máquinas e as redes.
Temos então, não somente a inclusão de novas máquinas, mas também de procedimentos inéditos de trabalho e de novas relações com esses instrumentos/interfaces, propondo horizontes lógicos e poéticos diferentes, chamando para uma renovação de temas e conteúdos. Trata-se de novas vias, de novos representantes em vista de novas criações. Nossos hábitos de percepção, de concepção e de criação se encontram alterados da mesma maneira que nossos modos de aprendizagem e de ação. Essas utilizações geram diferentes códigos operatórios, cognitivos, ou ainda sociais. Podemos dizer igualmente que alguns desses novos códigos e desenvolvimentos técnicos influenciam e agem de forma retroativa sobre as manifestações e transformações artísticas. É evidente também que com o desenvolvimento da tecnologia, em particular a extensão tentacular das redes, não é mais possível identificar a rede a uma imagem única e definitiva. Em efeito, trata-se de modalidades de regrupamentos ou de combinatórias pessoais. Um tipo de entrelaçamento que se apoia sobre a riqueza das possibilidades e da fragmentação (construção/destruição), onde as redes se tornam instrumentos de reorientaçao e de filtração. O projeto artístico telemático se torna um tipo de energia latente, que é o denominador comum a todos participantes: uma cartografia de caminhos e de possibilidades. Trata-se de um movimento de sensibilidades e de intenções recíprocas entre as partes. Mais que uma imagem definitiva congelada e única, um fluxo de imagens que deságua como um rio, que tanto pode saciar a sede, quanto afogar ou seguir seu curso modificável mas irreversível.
O CIBERSPAÇO
Um outro fator a assinalar: o poder de agir diretamente sobre esse novo espaço, que é o ciberspaço. Este poderia ser o lugar, a zona intermediária, o no man's land onde a tecnologia encontra a rua. Um tipo de estrada consensual experimentada por milhões de operadores conectados, - vizinhos virtuais -, cada dia, nesse espaço que eles mesmos criaram, para uma visão simultânea do mundo, inscritos no tempo real da emissão e da recepção.
Com efeito, essas manifestações se propõem ou se apresentam como uma maneira efêmera de mostrar uma certa sensibilidade cibernético-contemporânea, de realizar experiências de ordem artística, com a elaboração e a pratica de diferentes possibilidades no universo da arte eletrônica. Trata-se sobretudo de uma dinâmica de erupção dentro de um novo espaço cotidiano. A pratica desses intercâmbios experimentais repousa sobre um procedimento de transgressão artística, que possibilita condutas que dão livre curso à expressão, ao dinamismo e à pluralidade do conhecimento e do sensível.
Trata-se, nesse caso, de insistir sobre o ato de criação/participação em si-mesmo, sobre o momento onde os sentidos vem revelar as significações, onde os esquemas de leitura/intervenção assumem sua precariedade.
São maneiras de conduzir o olhar sobre as coisas do mundo, uma certa descrição/intervenção do espaço perceptivo, uma maneira onde a presença dos co-autores é desenhada no mundo, entre as coisas.
CONCLUSÃO
Com os projetos telemáticos, estamos tratando de uma pluralidade participativa, ou seja, de perspectivas concorrentes, mas que guardam sempre a possibilidade de um diálogo. Dito de outra maneira, se procura colocar em diálogo perspectivas diferentes, para se assegurar uma abertura do campo artístico, construído nesse caso pelo intermédio das redes.
Em efeito, toda atividade artística em rede implica a presença, a perspectiva do outro; nossos sentidos não existem que na medida onde eles são também uma doação do outro.
Em poucas palavras, podemos dizer que este trabalho de reinserir a contingência do sujeito num trabalho coletivo não é outra coisa que o esforço de retornar ao sujeito-leitor, co-ator, toda a sua carga de responsabilidade. De fato, uma das idéias diz respeito à responsabilidade que deve guardar o interventor diante da sua participação.
Transposto ao plano da prática, os intercâmbios levam em consideração as relações entre a validade primeira do projeto e a coerência desenvolvida pela nossa participação critica, entre a unidade que inaugura o projeto e a pluralidade possível que venha a surgir. Em ocorrência, nós temos um trajeto que não tinha jamais se estabelecido anteriormente, que não se estanca num ponto determinado, numa perspectiva voluntariamente limitada do espaço artístico-participativo, mais num mundo perpetuamente nascente.
Podemos considerar a rede como um grande campo de ação nômade, onde os atores vão à "descoberta" de coisas algumas vezes precisas, outras vezes encontradas ao acaso, sonhando de construir um "mosaico", com dados contíguos, nos menores detalhes, mas não idênticos uns aos outros. Um "mosaico" onde a figura escondida pode surgir de um momento ao outro da configuração de suas caprichosas parcelas.
O novo nômade se situa certamente sobre a grande cena tecnológica e cultural deste fim de milênio. O artista, eterno viajante, no mundo, com seus personagens que não terminam de dizer bom dia e adeus, que passam carregados de suas bagagens e historias. Mas, a criação não se termina no produto, ela é antes de mais nada processo e engajamento no meio de dúvidas e ela se prolonga em cada um de nós. Cada artista, segundo seu estilo, testemunha uma experiência da paisagem telemática atravessada em seu próprio ritmo, se descartando do puro efeito técnico para ater-se sobre ínfimos eventos, simples trabalhos de "todos os dias", essas variações imperceptíveis para os que vão muito rápido - paradoxo do artista telemático - num mundo tecnológico que funciona a grande velocidade e com enormes diferenças sócio-econômicas.
Num mundo, onde tudo aparenta já ter sido pensado e realizado, as redes propõem a seus parceiros novos territórios para o imaginário. O trabalho artístico e o artista estão em profunda transformação. As redes permitem, ao menos aos que têm acesso a esses "instrumentos de conhecimento/criação", de sonhar juntos dessa união e dessa partilha.
Dito de outra maneira, trata-se de mover a sensibilidade, de ensiná-la a se locomover nessa zona onde o imaginário e o real se roçam, se tocam, se permeiam, sem que haja uma linha de separação/continuidade bem definida. Isso significa que a cada troca/passagem, o artista/parceiro, se engaja em um percurso de aprendizagem/participação que não se limita somente a esse percurso em questão, mais que chama outros e ainda outros, em inumeráveis caminhos lembrando o Jardim de Borges, onde os caminhos se bifurcam infinitamente.
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