EDUARDO KAC: TELEPRESENÇA PROBLEMATIZA A VISÃO
Entrevista a Simone Osthoff

In: Cadernos da Pós-Graduação, Instituto de Artes, Unicamp, Campinas, ano1, vol.1, n.1, pp.7-12, 1997.



Artista poliglota de descendência européia, Kac cresceu no bairro de, Copacabana no Rio de Janeiro. Esse carioca cosmopolita que reside nos Estados Unidos e leciona arte eletrônica na The School of the Art Insitute of Chicago, transita confortavelmente entre culturas diversas. Em sua obra mediática, Kac aciona novas formas de percepção, criando a experiência daquilo que é presente mas não imediatamente visível e questionando a hegemonia da visualidade na arte. Ele subverte a passividade cômoda e unidirecional das transmissões do rádio e da televisão, e utiliza as telecomunicações com uma ênfase marcadamente democrática e dialógica. As implicações culturais da obra de Kac, ao mesmo tempo que refletem questões epistemológicas, lingüísticas, e perceptivas, não deixam por isso de refletir também experiências autobiográficas.

Em sua obra "Rara Avis," por exemplo, de 1996, o telerobô de Kac que da nome à obra -- híbrido de ave tropical e tecnologia de ponta -- existe para sabotar noções que ainda fazem de araras, bananas, e Copacabana objetos exóticos aos olhos estrangeiros. Através da paradoxal experiência de proximidade à distância da telepresença, Rara Avis desloca o ponto de vista do observador e questiona hierarquias culturais, tecnológicas e políticas, problematizando as fronteiras entre o familiar e o exótico. Ao usar o visor de realidade virtual na galeria, o observador habita virtualmente o corpo da arara-telerobô passando a ver a si próprio com os olhos do outro. Nesse espelho virtual, observador e observado, sujeito e objeto ocupam o mesmo espaço dentro e fora do aviário, e dividem, em tempo real, imagens com participantes remotos localizados em vários pontos da rede, com múltiplos protocolos (CU-SeeMe, Web, MBone), e que por sua vez ativam o aparato sonoro do telerobô. Os sons no aviário são também ouvidos na Internet e vice-versa. A fluidez entre identidade e alteridade, proximidade e distância, espaço físico e virtual, dissolve dualismos que opõe humanismo e tecnologia, matéria e metafísica.



Osthoff: Qual o papel do computador em seu trabalho?

Kac: Não sou um artista que se especializa no uso de um meio em particular. Considero todos os meios à minha disposição. O conceito de cada trabalho é que dita o meio que emprego -- e o computador não é exceção. Isto implica que devo ensinar novos recursos técnicos a mim mesmo quando necessário, ou trabalhar com equipe própria, ou mesmo em regime de colaboração, se for o caso. Um elemento comum ao meu trabalho como um todo, de 1980 ate o presente, é a investigação dos processos de comunicação e da "mediascape" (linguagem, visualidade, telecomunicações, redes telemáticas, etc.) e sua relação direta com a nossa experiência do real, isto é, com o processo de construção do real.
Meu trabalho começou no inicio dos anos 80 com performances e fotoperformances, e prosseguiu ainda na mesma década com uma serie de outros meios experimentais, tais como a instalação publica de "outdoors", letreiros luminosos, livros de artista e outros múltiplos, holografia, computação gráfica e telecomunicações. Em 1983, por exemplo, inventei uma nova poética experimental que denominei de Holopoesia. A holopoesia corresponde diretamente à experiência contemporânea em sua imaterialidade, não-linearidade e fluidez. Minhas exposições individuais de holopoesia -- no MIS de São Paulo, em 1985 (a primeira do gênero em nível internacional), e no Museu de Holografia em Nova York, em 1990 -- foram bons exemplos. Entre 1987 e 88 fiz meu primeiro holopoema digital no Rio de Janeiro. Desde 1989 venho criando todos os meus holopoemas digitalmente, o que de fato me liberou dos limites da matéria física (limites como solidez e rigidez do objeto, gravidade e decomposição do material). Talvez, de forma ainda mais importante, este novo processo -- que desenvolvi em Chicago entre 1989 e 1990 -- me permite uma relação fluida entre a imaterialidade do pensamento, do processo de criação e produção, e de visualização da obra, que jamais adquire forma tangível. Já na década de 90 meu trabalho tem utilizado holografia, computação gráfica, instalação, interatividade, telemática e a Internet, bem como outras formas de criação ainda não codificadas no mundo da arte, como o "software de artista", a telerobótica, e questões biológicas, por exemplo. Desde 1989 venho desenvolvendo uma nova forma de arte que inventei e que chamei de "telepresence art". Este trabalho tem sido mostrado nos Estados Unidos, na América do Sul, na Europa e, virtualmente, no mundo inteiro através de videoconferência digital, em tempo real, na Internet. Esta nova arte se define na interseção entre interatividade, telecomunicação, e robótica. Tenho um interesse agudo na investigação das novas possibilidades da tecnologia na arte, mas trata-se de um interesse critico. Eu misturo tecnologias velhas e novas, e as forco a revelar seu caráter limitado e limitador, criando com formas híbridas situações onde modelos mais democráticos e/ou críticos emergem. "Rara Avis," instalação que originalmente preparei para a mostra de arte dos jogos olímpicos, em 1996, em Atlanta, é um bom exemplo. Eu tento investigar o impacto cultural, social, filosófico, e político que estas tecnologias, presentes ou ausentes no horizonte imediato, têm em nossas vidas.



Osthoff: Também queria conhecer algumas de suas opiniões sobre a relação entre arte e tecnologia. Em que medida os recursos oferecidos pelo computador ampliam as possibilidades da criatividade? Quais novas perspectivas a maquina oferece ao artista? Quais são suas limitações?

Kac: A tecnologia sempre esteve presente na criação artística. Ate hoje se debate a tecnologia inovadora empregada pelos egípcios na criação de pirâmides, mas as pirâmides, como legado cultural, são mais importantes que a técnica. O lápis, quando surgiu no século 16, foi algo de revolucionário. É impossível pensar a revolução pictórica impressionista sem a rica paleta cromática tornada possível por avanços na ciência química da época. Mas, obviamente, o lápis e o tubo de tinta não fazem, sozinhos, obras de arte. O computador é uma entre outras também muito importantes tecnologias contemporâneas. O computador oferece por um lado uma liberdade jamais usufruída por artistas em qualquer época, mas por outro o computador traz também o risco de restringir o espectro da nova arte. A questão da técnica só interessa na medida em que uma idéia nova só pode ser realizada se a nova técnica existir. A técnica não interessa em si mesma. Neste fim de século, quando esta claro que a pintura esgotou seu potencial radicalmente inovador, contestatório, e critico, o uso do computador (não apenas para criar imagens gráficas, este um uso secundário) pode abrir novas possibilidades. No meu caso, por exemplo: holografia digital, fotografia eletrônica, software de artista, telepresence art, instalação telemática, Webwork, projetos biológicos. Talvez não estejamos diante de novos objetos e sim de novas relações entre elementos conhecidos -- e estas novas relações são fundamentais. A tecnologia é importante, mas apenas como potencializadora da obra. Muitos artistas simplesmente "usam" novas tecnologias na esperança de emprestar algum valor a obras que de fato são vazias. Isto é o que alguém uma vez definiu como "desperdício de tecnologia a serviço da falta de criatividade". O problema não esta do lado dos artistas, que compreendem claramente a necessidade e a importância do que fazem. O problema esta no fato de o sistema da arte ser movido por uma maquina esclerosada que se baseia num mercado artificial, que empresta valor cultural a obras que são vendidas por grandes somas. Ora, o fato de que alguém esta disposto a pagar uma grande soma por um objeto não indica que este objeto tenha, de fato, grande importância artística. O mercado da parafernália histórica de baseball, ou de antigas bonecas Barbie, nos Estados Unidos, são um exemplo claro de se paga muito dinheiro por artefatos de alto valor comercial e baixo conteúdo. Com isto quero dizer que a maioria dos críticos e curadores preferem investir no que já é conhecido, por comodismo cultural e medo de arriscar a carreira naquilo que não compreendem bem. Enquanto isso, a nova Bienal da Coréia convidou Nam June Paik e Cynthia Goodman para organizar uma grande exposição de InfoArte, e a bienal de Lyon tematizou os novos meios. Importantes eventos internacionais, como Ars Electronica (Linz), Interface (Hamburg), ISEA (novo pais a cada ano), e Siggraph (EUA) -- dos quais participo regularmente -- indicam claramente a presença definitiva da arte eletrônica a revelia do mercado de objetos. A mudança de valores é iminente. Levara tempo, mas não ha duvida de que uma nova geração de curadores, que crescera com a televisão desligada e a Internet acesa, aceitara esta nova forma de arte sem preconceitos.



Osthoff: E sobre direitos autorais e comercialização da arte? Será que as obras feitas de pincel, papel, mármore, maquina de escrever terão maior valor comercial dentro de algum tempo? Qual a melhor forma de socialização da arte nos tempos cibernéticos? O acesso de milhares de pessoas em todo o mundo aos computadores pode democratizar a arte? As formas tradicionais de arte podem encaixar no mundo cibernético? A Vênus de Milo pode ser digitalizada e mantida em um disco rígido e ainda ser uma obra de arte considerada uma referencia no mundo das artes?

Kac: O mercado de arte fará tudo para se reinventar e continuar lucrando com o que for que as pessoas estiverem interessadas em comprar, ou puderem ser convencidas a comprar. Esta é uma questão secundaria. Claro, o artista precisa sobreviver e não ha nada de errado em vender obras ou obter apoio na realização de projetos. O problema esta na especulação artificial e na validação artística baseada em preço -- e não na importância da intervenção cultural da obra. O projeto do Bill Gates de digitalizar obras impressionistas, por exemplo, é também um "desperdício de tecnologia a serviço da falta de criatividade". Eu preferiria ver esta fortuna sendo gasta para ajudar os artistas que criam obras de arte eletrônica de verdade. Pensar na arte eletrônica como uma arte mais socializada é um pouco de ingenuidade. Claro, em principio, a idéia de que a arte pode ser vista na tela de televisão, ou que a arte pode ser distribuída via telefone na Internet, sugere que um maior numero de pessoas estaria em contato com a arte. Isto é, um numero maior do que a quantidade de pessoas que freqüentam o museu. Mas se você pensar bem, você vera que apenas 20% da população do mundo tem telefone, aproximadamente. Neste sentido, educação gratuita e generalizada e melhor distribuição de renda farão muito mais para democratizar a arte do que alguns dispositivos eletrônicos. Alem do mais, ver uma representação digital de uma obra de Chagall não pode ser comparado com estar diante de um de seus gigantescos e belos painéis, como os que estão no Museu Chagall, em Nice, Franca. Por outro lado, o artista que quer de fato levantar problemas da contemporaneidade não pode simplesmente fazer uma pintura de uma família vendo televisão, ou pintar pessoas com linhas horizontais e brilho que se assemelha ao da televisão-- isto não é suficiente. Lichtenstein tinha medo de deixar suas imagens na Web porque alguém pode copiar. Isto é ridículo. Um numero muito maior de pessoas tem acesso à suas imagens em livros do que na Web. Esta geração mais velha não parece compreender ou aceitar a natureza da profunda mudança em curso. Colocar imagens de pintura e escultura na Web tem valor educacional, mas estas imagens não constituem obras de arte. Uma nova arte demanda novos códigos e meios, novas formas de distribuição e preservação, e novos modos de apreciação crítica.



Osthoff: Qual o contexto da arte em meio as novas tecnologias?

Kac: Nenhuma obra deve ser julgada de acordo com a presença ou ausência de novas tecnologias. A obra de arte deve ser vista no que ela comunica nos níveis visuais, semânticos, intelectuais e emocionais. O contexto da arte é o mesmo, seja a obra feita em óleo sobre tela ou com um telerobo na Internet. Não ha duvida sobre isso. A questão é mudar a forma de pensar de curadores e públicos, para que vejam as duas manifestações sem preconceitos. Um outro dado muito importante é a relação da arte contemporânea com outros campos do saber e outras áreas profissionais, o que a torna menos presa às tradicionais belas artes e mais integrada à cultura como um todo. É neste novo espaço cultural que a arte eletrônica realiza a sua mais importante contribuição.



Simone Osthoff é professora do Departamento de História da Arte, Teoria e Crítica da The School of the Art Institute of Chicago.

Eduardo Kac - Assistant Professor of Art and Technology
Art and Technology Department - The School of the Art Institute of Chicago
E-mail: ekac@artic.edu


Este texto foi inicialmente publicado no Cadernos da Pós-Graduação do Instituto de Artes da Unicamp, Ano 1, Vol 1, nº 1, pp. 7-12, 1997.