ARTE DO SÉCULO XXI: A HUMANIZAÇÃO DAS TECNOLOGIAS. EXPOSIÇÃO ARTE E TECNOLOGIA
Gilbertto Prado



O evento Arte do Século XXi: a Humanização das Tecnologias , voltado para a discussões das transformações ocasionada pelas relações entre arte, tecnologia nesse fim de século teve a curadoria geral de Diana Domingues, como coordenador da exposição Gilbertto Prado e como coordenadora do colóquio Ana Claudia Mei de Oliveira .

A exposição Arte e Tecnologia , realizada de 28 de novembro a 10 de dezembro no Museu de Arte Contemporânea da USP em São Paulo teve como objetivo o de trazer algumas produções artísticas recentes utilizando dispositivos tecnológicos na intenção de revelar novas poéticas. Nessas novas direções e confluências que vêm sendo possibilitadas pelos novos meios eletrônicos, distintos setores, áreas e disciplinas tendem a se interpenetrar. O computador e as novas tecnologias ultrapassaram a idéia de desenvolvimento assim como a noção de ferramenta ou de um instrumento e possivelmente vão permanecer como dispositivos artísticos no futuro. Mas o que realmente importa são os efeitos desses dispositivos sobre o pensamento, o processo e a realização artística. Enfim, é importante que permaneçamos conscientes e abertos a esses trabalhos e manifestações que são propostas pelos artistas atualmente. Nesses trabalhos está presente o intuito do diálogo e da interação dinâmica expondo a fragmentação da experiência deste nosso novo cotidiano e gerando um clima de comentário, participação, intercâmbio e partilha.

Entre os artistas que utilizaram a rede Internet para apresentar os seus trabalhos e convidar o público para visitar e/ou interagir em seus sites: Stéphan Barron, (França), com o projeto Le jour et la nuit, onde dois computadores, um em Sidney na Austrália e outro em São Paulo, calculavam a média da cor do céu entre os dois países. Como a cor varia entre o azul escuro e o azul claro seguindo a luminosidade e, como será noite num país enquanto é dia no outro, haverá sempre um equilíbrio azul-médio entre os dois azuis, um ponto de equilíbrio frágil entre o dia e a noite. Bernard Demiaux e Ana Richardson (França), com o projeto Overdose Family, onde o público do Museu através da rede Internet escolhem um dos personagens que lhe são propostos (Papa, Mickey, Castañeda, Mao, ...) imaginam o que pensa o personagem e enviam sua escolha e resposta ao servidor Web. Essas respostas são recolhidas e integradas ao conjunto de dados e ficam disponíveis ao público no servidor Web controlado pelos artistas. Fred Forest da França, deu continuidade a sua experiência multimídia (TV + rádio + internet) pela qual acabou de receber em setembro deste ano o grande prêmio Ville de Locarno oferecido pelo XVI Festival de la Vidéo et des Arts Électroniques. O público visitante foi convidado a criar novos diálogos pela rede para uma cena entre atores do filme Casablanca (em Locarno e agora em São Paulo). Eduardo Kac, brasileiro residente nos Estados Unidos, colocou para a consulta do público o seu site Web, onde podíamos recorrer e consultar os seus vários projetos artísticos (performances, telemática, holografia), seus textos teóricos, referências e bibliografia. Philadelpho Menezes apresentou um projeto de poema que usa a potencialidade de expansão comunicativa das redes informacionais. Partindo de três versos iniciais de Philadelpho, o poema se desenvolve via rede internet de outros poetas de diferentes línguas e localizações geográficas.

Quanto aos trabalhos de geração de imagens via computador, apresentados em vídeo, durante a exposição, tivemos os trabalhos de Michel Bret (França) com a sua mais recente produção de animação de imagem de síntese Betezeparticules, de 1995 com a duração de 4 minutos. Hervé Huitric e Monique Nahas (França) com as animações usando como referência o rosto humano Indodondaine, Le Gros Bouillon, 3 Portraits, La Grand Roue, Animation de Base de Donneé Laser. Emanuel Pimenta (Brasil/Portugal) com animações de imagens de síntese de cidades e de arquiteturas virtuais, com Woiksed. Yoichiro Kawaguchi (Japão) com as animações sintéticas de formas orgânicas Ocean e Eggy. Júlio Plaza (Brasil) com vídeo-poema O arco íris no ar curvo, montagem da "Fita de Moebius" e do texto "O arco íris no ar curvo", aparecendo na forma de imagem de síntese.

O grupo francês Art-Réseaux, apresentou em forma de CD-ROM, o projeto de Karen O'Rourke Paris Réseaux, "guia" hipermídia que permite tornar visível uma rede traçada em Paris pelos deslocamentos de vários personagens em momentos diferentes. Ela associa imagens numéricas, animações, textos e sons, que o visitante podia explorar para construir sua própria Paris imaginária. Tânia Fraga (Brasil) apresentou em computador suas Simulações Estereoscópicas Interativas, que são objetos virtuais tridimensionais, campos de possibilidade, propiciando aos usuários de com eles interagir poeticamente ao imergir parcialmente no espaço virtual criado. Suzete Venturelli (Brasil) apresenta Construção e Animação do Corpo Humano através da Computação Gráfica, onde ela busca relacionar a arte, ciência e a tecnologia através da construção e animação do corpo humano. São 5 impressões "hardcopy" e um programa multimídia, onde o público pode interagir com animações, som e textos que acompanham o trabalho.

No campo das instalações, Diana Domingues (Brasil) apresentou o trabalho In-Víscera, onde em uma sala fechada o público emite sons que são amplificados e reverberados, enquanto assistem a imagens feitas por videolaparoscopias tratadas eletronicamente que são teleprojetadas em telas transparentes. O público pode se deslocar entre o fluxo de imagens, simulando o percurso no interior de um corpo em pleno funcionamento. Wagner Garcia (Brasil) com o trabalho Tinkering with Evolution, uma pedra de gelo com um cérebro dentro se descongelando, propõe de forma metafórica como os hábitos e leis da natureza surgem e se desenvolvem. Philippe Jeantet (França) com a instalação Stop Bomb, ambiente de sala de classe média, onde o público sentado no sofá e poltronas assiste a um programa de animação no computador com a palavra "não". Ruggero Maggi (Itália) com a instalação The Birth of Ideas leva o espectador a acompanhar o movimento de um raio laser, com sua luz brilhante e vermelha através de um punhado de corda desfiada. A luz do laser começa seu movimento na escultura de uma face e determina diferentes cisões no material desfiado. Bia Medeiros (Brasil) e seu grupo de pesquisa translinguistica apresentou Corpos Informáticos. O trabalho mostra animações e imagens numéricas, vídeos e espetáculos, instalações que re-presentam o corpo sujeito, e objeto, das novas tecnologias. O espaço é re-elaborado em espaço cênico para que seja penetrado, transbordado pelo público. David Rokeby (Canadá) traz a instalação Very Nervous System na qual usa câmeras de vídeo, processadores de imagem, computadores, sintetizadores e um sistema de som para criar um espaço no qual os movimentos do corpo geram som e/ou música. No interior da instalação uma câmera de vídeo observa o movimento do visitante e um computador compara cada quadro com o anterior e os sons são ouvidos quase que simultaneamente aos movimentos que os produzem. M.A. (desejo) é a instalação interativa de Gilbertto Prado (Brasil), uma peça cilíndrica de fibra de vidro de 2,50m de diâmetro por 1,70m de altura, ladeada por 3 escadas e 3 máscaras que dão acesso ao tampo superior aonde por mais 3 máscaras se pode olhar parcialmente o interior da caixa rosa: 1 câmera de vídeo colocada por trás do próprio espectador que se vê em posição de "voyeur", e pelos 2 orifícios das outras máscaras, 2 computadores com animações multimídias para serem navegadas. São 9 poemas escritos e sonorizados, vídeos e imagens numéricas elaboradas a partir de uma polaroid encontrada de um marinheiro observando cartazes de uma strip-girl nas ruas de Paris. Milton Sogabe (Brasil) apresenta Mãos à Obra onde sensores e um computador fazem a intermediação dos meios utilizados com o usuário que, através de suas mãos aciona o sistema. Esse sistema de sensores se encontra sobre uma mesa onde diversos objetos eletro-eletrônicos estão expostos sem suas caixas, deixando visíveis seus chips e circuitos bem como as partes mecânicas, reagindo às operações dos espectadores. Sílvio Zamboni (Brasil) com a vídeo instalação A Cozinha Maravilhosa do Sr. Muntadas apresenta imagens do artista Antonio Muntadas elaborando um prato típico de cozinha espanhola conjuntamente com imagens de seus trabalhos. A instalação interativa Perception: Fast Forward IV de Isabelle Chemin e Guido Hübner (França) inspirado num modelo de rede neuronal é composta de 4 PCs em círculo. Entre cada dois usuários uma ligação por tubo de neon desenha no espaço o signo = ou _ informando a relação entre as imagens nas telas. Sobre as 16 configurações possíveis a metade leva ao equilíbrio estável que uma vez atingido faz com que apareça uma animação tridimensional, simultaneamente nos 4 monitores.